terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Um dia de chuva

Enquanto eu percorria àqueles quilômetros de bicicleta, só pensava em você. Era muita chuva e meu corpo já estava ensopado. Muito vento no rosto e um frio congelante. Me lembrei de quando você me vestia com aquele moletom cinza nos dias típicos dessa chuva - de quando o sol se esconde de repente. A chuva significava, então, nada de rua. Cessavam as brincadeiras fora do chalé e os bolinhos de chuva marcavam nossos dias.
Não tinha uma parte do meu corpo seca, e se você visse isso estaria horrorizada, me daria logo uma toalha bem seca e me mandaria para um banho quentinho. Depois, aposto que eu teria meus bolinhos de chuva, meu moletom e uma coberta daquelas. Colo e carinho na cabeça você me daria. Assim eram minhas férias, com sol ou com chuva, mas sempre com você. Sem me importar com quanto tempo já passou, você volta nos meus dias como um pensamento fixo... E são sempre boas lembranças.
Era esse um amor protetor, um amor bom e puro.
Bianca Garcia

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Lá do outro lado


Do lado de cá não tem morro com bondinho, nem morro com estátua. Não tem monumentos pelas ruas, nem estátua de artistas. Não tem cultura a céu aberto, nem visitantes circulando. Não tem praia na esquina, ou no quarteirão seguinte. Não tem prédio pra todo lado inibindo a nossa vista. Não tem calçadão bonito, nem jardins de muitas plantas. Não tem parques espalhados, nem museus de história viva. Não tem campos bem gramados para um futebol de quinta. Nem mesmo lagoas de água poluída... Mas tem gente que dá bom dia para gente desconhecida. 

Bianca Garcia

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O limite entre o jornalismo e a violência

Segundo o Insi (Instituto Internacional de Segurança da Imprensa), mais de 1.200 jornalistas morreram, nos últimos dez anos

No Brasil, dezenove jornalistas morreram exercendo sua profissão entre os anos de 1994 e 2011 – dentre eles estão Tim Lopes, em 2002, e Gelson Domingos da Silva, em novembro deste ano. Segundo a CPJ (Committee to Protect Journalists), esse número se refere apenas a mortes com motivos confirmados, quando uma investigação conclui que o profissional foi morto em represália direta por seu trabalho, seja em realização de uma tarefa de risco, como no caso de Tim Lopes, seja por fogo cruzado, como, agora, com Gelson Domingos.

A morte de Gelson Domingos, em novembro, levantou diversas indagações sobre o desempenho da atividade profissional jornalística em situações de risco. Como ficou evidente com a morte de Gelson, o colete à prova de balas usado pelos profissionais de imprensa não dá conta de disparos efetuados por fuzis e outras armas de guerra usadas pelos traficantes do Rio. Para o presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Maurício Azedo, este caso pode ser o gatilho para que as autoridades imponham limites na cobertura da imprensa em situações de risco.

Para o Coronel Frederico Caldas, coordenador de Comunicação Social da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, deve haver limites para a cobertura jornalística em situações de conflito. “Nós sabemos muito bem que essa palavra limite tem uma conotação preocupante para a mídia, mas é preciso que nós tenhamos limite, sim, especialmente quando tratamos da vida de pessoas. Nós não temos como controlar o trabalho da imprensa porque não nos cabe isso, o trabalho da imprensa é fundamental para informar o cidadão. Mas é o momento de refletir até que ponto vale à pena buscar a informação a qualquer custo”, afirma.


Intervenção da polícia em coberturas de risco


A luta travada entre as várias facções que dominam as favelas do Rio torna a cobertura jornalística um ato tão complexo e perigoso como os concebidos em áreas de guerra. Hoje, com a implementação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), há uma redução da atuação dos marginais nessas áreas, mas, mesmo assim, ainda ocorrem conflitos, e a imprensa deve estar presente para mostrar à sociedade a atuação do Estado nessas regiões, após anos de descaso e ausência.


Segundo Ricardo Boechat, âncora do Jornal do Band e da BandNews FM, a polícia deve intervir em coberturas jornalísticas. “Concordo que a margem de risco de jornalistas que cobrem conflitos é elevada. No caso do Rio de Janeiro, elevadíssima. Acho que a melhor palavra para dizer se o terreno está minado ou não, no momento da ação, é da autoridade policial”, alerta.

Por Bianca Garcia em O Estado RJ

Observação:
Esta matéria foi publicada no dia 07 de dezembro na Editoria Estado.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Contra a injustiça em defesa do Rio: política ou espetáculo?

Marcado pelo entretenimento, protesto no Rio tenta sensibilizar Dilma e o Congresso

No último dia 10, o centro do Rio esteve reservado a uma manifestação promovida pelo governador Sérgio Cabral (PMDB), cujo lema era “Caminhada Contra a Injustiça em Defesa do Rio”. Com o objetivo de protestar contra as novas regras de distribuição dos royalties do petróleo, em breve pronunciamento, Cabral afirmou que o Estado do Rio não vai ceder ao projeto de lei que, segundo ele, prejudicaria o Estado.  “Nós não vamos ceder um real sequer do que já foi licitado por respeito ao diálogo e à democracia. O Rio é um estado essencialmente democrático, mas não vamos aceitar que avancem sobre receitas garantidas ao nosso povo”, garantiu Sérgio Cabral aos manifestantes.

O ato público contou com uma elaborada preparação. Dias antes do acontecimento, Sérgio Cabral afirmou que esperava a presença de cerca de 100 mil manifestantes para sensibilizar a presidenta Dilma Rousseff e o Congresso Nacional. Cabral promoveu uma coletiva de imprensa para convocar a população, decretou ponto facultativo – medida também tomada pelo prefeito Eduardo Paes -, espalhou faixas pela cidade e liberou meios de transporte para as pessoas irem à manifestação (ônibus pagos para as pessoas de Macaé e Campos e passagem gratuita nos horários de ida e volta para todos os moradores do Rio nos períodos de 13h às 15h – início da manifestação - e 20h às 22h – fim dos shows).


Apesar do apelo e da urgência da questão enfatizada pelo governador do Rio, nem todos os cariocas estavam de acordo com as justificativas apontadas para a realização do evento. Segundo o professor universitário Fábio Candido, a manifestação indicou “o desespero de um governo que teme perder uma receita importante para a manutenção de um certo projeto político, não necessariamente compatível com o bem estar do povo ao qual deveria se destinar”.


Para o humorista Anderson Gago, “o governo está usando o povo mais uma vez como massa de manobra, porque as pessoas não estão cientes do que realmente está acontecendo. Muita gente nem sabe o que são os royalties e acha que é uma marca de gelatina. Ao passar pela manifestação, vi um trio elétrico tocando Katy Perry, parecia mais uma parada gay do que uma manifestação séria em prol dos royalties do petróleo”.

Ao que parece, a “Caminhada Contra a Injustiça em Defesa do Rio” se tornou uma questão de números e de manipulação de uma imagem política. Com direito às mais variadas formas de espetáculo: trio elétrico, animador de plateia e shows com cantores e grupos populares. Também estiveram presentes no evento personalidades políticas e celebridades televisivas.


As manifestações têm pesos diferentes

O evento ocorrido na Cinelândia mostrou que a praça, outrora palco de grandes manifestações políticas, estava partida. De um lado, os manifestantes do “Ocupa Rio”, cuja visibilidade foi ignorada. Do outro, os participantes da “Caminhada Contra a Injustiça em Defesa do Rio”, que demonstravam estar radiantes ao som de bandas e cantores populares. Mas a “Caminhada” evidenciou, acima de tudo, o interesse do Governo do Estado em manter investimentos no Rio, mesmo que para isso tenha tido que decretar ponto facultivo para o funcionalismo público e realizar toda sorte de ações para chamar a atenção da população e da imprensa.

Por Bianca Garcia em O Estado RJ


Observação:
Esta matéria foi publicada no dia 12 de novembro na Editoria Estado.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A mídia da captura


Era quarta-feira 9 de novembro. E, em um dos cenários mais bonitos da cidade, passava o carro cujo traficante da maior favela da América Latina estava escondido. Segundo a polícia, era uma tentativa de fuga. Mas fora impedida por sua fabulosa atuação. É comum aqui no Rio que os carros luxuosos sejam parados, ainda mais quando se trata de um bairro nobre. Era nada menos que a Lagoa Rodrigo de Freitas.

Antônio Francisco Bonfim Lopes era o chefe do tráfico na Rocinha há seis anos. Um homem de meia idade, dono do morro e pai de sete crianças deve ter bastante respeito entre os bandidos e uma população próxima à essa realidade. Caso contrário não teria esse poder, não seria o “mestre”, o “presidente” – como ouvi dizer que era chamado por quem convivia com ele.

Era fim da noite de quarta e as notícias não poderiam ser outras: a captura do mais temido e procurado traficante do Rio. Seu rosto estampava os jornais e sua nova aparência não foi surpreendente. A foto que a polícia tinha para reconhecê-lo era bem antiga. O sorriso largo, o cabelo colorido – metade castanho, metade loiro, e a magreza não mais faziam parte da fisionomia do Nem. Quando preso, o traficante vestia uma blusa social toda fechada e um rosto completamente diferente.

Depois, no jornalismo, só se falava disso. As imagens se repetiam como se Nem fosse um grande troféu. E a chegada do traficante na sede da Polícia Federal, na Zona Portuária do Rio, também preencheu um grande espaço na grade das emissoras. Ouvi telespectadores reclamarem. Mas a mídia ainda não percebeu essa sua falha em repetir imagens, assuntos ou até reportagens.

Logo a notícia correu mundo a fora e os jornais de outros países noticiaram o fato. Afinal, faz parte do projeto que vislumbra um Rio seguro, fora das mãos dos traficantes e do poder paralelo. Um Rio de Janeiro controlado pela eficácia da segurança pública promovida por Sérgio Cabral e, o secretário de segurança do estado, José Mariano Beltrame e não mais pelo medo – que no final, continua acerca dessa sociedade acuada que nos tornamos.

É este o peso que grandes eventos esportivos mundiais trazem à cidade: “é recuperar o tempo perdido”. E perdido por autoridades que nunca se importaram – e continuam a não se importar - com as consequências de uma política ineficaz, uma política que não tem sentido quando se estuda a origem dessa palavra.

Mas, dizem algumas pessoas e algumas matérias que Nem já pretendia se entregar. Então, sabe-se lá sobre a linha - tênue - que separa sua prisão e sua entrega.

Bianca Garcia 

domingo, 13 de novembro de 2011

Cultura para quem pode pagar

Para quem se destinam os eventos culturais da cidade carioca?
São muitos os motivos que  trazem a infinidade de programas culturais cercando a cidade, inclusive, porque os maiores nomes da música brasileira, e até da estrangeira, têm o Rio como um ponto fixo de sua turnê pelo mundo. Os cariocas não podem reclamar da diversidade cultural que possuem ao seu redor. No entanto, ao tratar de valores, muda-se o cenário. Cultura é, então, um programa para a elite?
Em novembro, a elite carioca poderá contemplar o show de João Gilberto, músico brasileiro considerado o criador da Bossa Nova. Tendo sua apresentação realizada no Teatro Municipal, os ingressos variam de R$ 600 a R$ 8.400 reais. Neste caso, somente as classes altas poderão estar presentes. Um evento segregatório, já que membros da classe C, inclusive, não poderão pagar pelo valor desse ingresso. E, assim, também acontece com os espetáculos do Cirque du Soleil, onde as apresentações se restringem a um público fixo.

Segundo uma pesquisa realizada pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), em 2010, os elevados valores excluem parte dos brasileiros quando se trata do “consumo” de cultura. A grande maioria dos entrevistados afirmou que os preços altos são obstáculos ao acesso à oferta cultural, sendo que 71% concordam que esse ponto é um importante empecilho à fruição de bens culturais. No entanto, 25% discordam e acreditam que os preços não se constituem em problema.

Cultura para quem?

Shows com preços acessíveis, eventos em praças públicas, museu com entrada franca, passeios históricos ao ar livre e peças teatrais com valores irrisórios existem pela cidade, mas quando se trata de ícones históricos, com presença no Rio, os eventos reúnem apenas a elite carioca. No entanto, cultura deveria ser para todos. “O governo ou os realizadores dos eventos elevam o valor dos ingressos com o objetivo de elitizar ou tentar fazer isso. E, dessa forma, a classe baixa tem que se contentar com os shows gratuitos nas areias de Copacabana e no Piscinão de Ramos em épocas festivas. Não há igualdade em nada, no final das contas, todo mundo é separado pela classe social”, indigna-se a estudante Tamires Ribeiro.

“A precificação atual de alguns grandes eventos tem como consequência elevar mesmo os níveis das pessoas no local, acredito. Mas existem eventos gratuitos, como o Rio Cello Encounter, por exemplo, onde a maioria faz parte das classes mais altas, como A e B. Na verdade, percebo que o maior problema atualmente recai sobre a meia-entrada para estudantes. Os organizadores de grandes eventos andam dobrando ou quadruplicando os valores dos ingressos para poder cumprir a lei de meia-entrada, que ao invés de possibilitar o envolvimento maior com a cultura, se tornou uma indústria de descontos”, completa a designer e empresária carioca, Cristiana Marroig.

Rio de Janeiro e os maiores eventos esportivos

O brasileiro, culturalmente, gosta e aprecia o futebol. Mas a Copa do Mundo e as Olímpiadas que acontecerão no Brasil, em 2014 e 2016, serão exemplos de como os elevados valores na arte e até no entretenimento segregam a sociedade. Fala-se apenas em valores. A superlotação dos estádios ainda não foi mencionada, já que os clássicos lotam os estádios cariocas sem qualquer esforço e em qualquer época do ano. Mas os cariocas esperam um preço justo para este evento que é uma de suas paixões.

Por Bianca Garcia em O Estado RJ


Observação:
Esta matéria foi publicada no dia 28 de outubro na Editoria Cultura.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Imagine

Imagine um mundo sem autoridade. Um mundo onde todos os espaços são de todos. Imagine um mundo sem shopping center. Um mundo sem passos controlados. Imagine um mundo onde as calçadas são livres para permanecer no caminho e não mais símbolo da miséria. Imagine um mundo onde as pessoas fazem o que gostam e não pensam em quantias. Imagine um mundo onde as pessoas não se preocupam com cores, origens, contas bancárias. Aliás, imagine um mundo sem bancos. Sem bancários. Imagine um mundo sem crianças abandonadas. Sem árvores derrubadas. Imagine um mundo sem fome e sem morte por desigualdade. Imagine um mundo onde as crenças são respeitadas. Imagine um mundo onde existe respeito. Imagine um mundo onde a favela e o asfalto são um só lugar. Imagine um mundo onde os interesses individuais não sobrepõem o interesse coletivo. Imagine um mundo onde não exista uma indústria que fomente a guerra. Imagine um mundo onde não há medo pelo outro. Imagine um mundo onde as ruas são verdadeiramente um lugar de liberdade. Imagine um mundo onde existe liberdade... Imagine um mundo sem poder.

Bianca Garcia