quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Um sábio senhor

Cá estava eu sofrendo com mais finais de breves encontros. Sofro quando penso que jamais poderei ver àquele lindo senhor, ou àquela menina que sorriu para mim no último minuto de uma viagem coletiva, o pequeno dos olhos verdes com aparência fraca, a mulher do sol e do tiroos gringos deslumbrados com a beleza do Rio ou este sábio senhor. De repente tenho certeza que nada acontece por acaso de fato. Vez ou outra fico em dúvida, mas no final das contas tenho certeza de que as coincidências não existem.

Enquanto eu lia um livro e grifava as partes que deveriam ser lembradas para sempre, o senhor que estava ao meu lado ficara olhando. Intercalara o olhar, ora para frente ora para o livro. O olhei. E ele não hesitou em perguntar se estas eram as partes que eu tinha que estudar. Respondi que não, eram apenas as partes que eu considerava mais importante. Era um senhor humilde que voltava para casa depois de uma longa rotina de trabalho - rotina esta que ao meu ver nem poderia praticá-la mais. Era um senhor, destes com quem a gente aprende sobre a vida em um aula especial de pouco menos de uma hora.

De repente o senhor começou a dizer lindas coisas. Talvez óbvias, mas às vezes só enxergamos algo quando alguém nos dizem... O sábio senhor começou a dizer sobre tempo e sorte. Disse-me que são para todos. Começara a dizer, então, sobre as lutas que a gente enfrenta durante a vida. Disse, com toda convicção, que a gente só não consegue as coisas que pretendemos por falta de luta. E, sem terminar por aí, o senhor disse que esta luta acontece também no amor. Disse-me que até no amor há luta e me garantiu que é preciso lutar para que ele não se vá. Indagando-o em meus pensamentos, perguntei por que não era o outro lado do amor quem ouvira suas palavras. 

O sábio senhor disse-me ainda que a felicidade também está para todos. Explicou, porém, que a felicidade só fica se a gente quiser e lembrou que tem gente que não quer, embora diga o contrário. Disse que nem a pessoa sabe que ela mesma afasta a felicidade. Assim ele contou que acontece também com o amor. Mas, sem se esquecer nem um minuto da beleza deste sentimento, ele disse que só o amor consegue nos deixar sorrindo, sem que nada nos aborreça. Disse que o amor é sublime, mas frisou que para tê-lo é necessário lutar.

Após mostrar-me sua sabedoria e chegarmos ao fim deste repentino encontro, o sábio senhor disse, sorrindo, sobre as pessoas que se fecham para o mundo e que não estão disponíveis nem para uma conversa. Agradeceu-me, mas mal sabe ele que eu quem o agradeceria para sempre. Desejou-me tudo de bom e muitas coisas lindas. Fiz o mesmo e me despedi, mais uma vez, destes breves encontros. 
E transitando de um lado para o outro neste caos urbano ainda consigo encontrar anjos ao invés de pessoas...

sábado, 1 de setembro de 2012

Zumbis da claridade


Desceram. E logo os percebi. De blusas sujas e esgaçadas, bermudas e chinelo, eles circulam pela cidade. Sempre à luz do dia eles descem para um árduo trabalho. Os zumbis da claridade não têm qualquer brilho nos olhos. Eles não se interessam pela vida, nem têm medo de perdê-la. Seus rostos não mostram qualquer medo da morte. Seus rostos são, na verdade, a morte em si. 

Com uma garrafa de água na mão, onde o líquido é inalado ao invés de ingerido, os zumbis circulam pela cidade. As mesmas mãos que seguram a garrafa, seguram cordões que estão em nossos pescoços. Sem vergonha da idade e dos olhos que os observam, eles atacam os transeuntes. Perplexos com a agilidade, os habitantes se surpreendem e discutem a capacidade humana.

Parece que os zumbis da claridade têm uma cota para entregar ao zumbi máximo e, assim, de repente eles somem das ruas agitadas. Eles se perdem em meio a movimentação urbana e são rápidos como a cidade por essa hora. Eles têm pressa, são rápidos, discretos e famintos por coisas que possam ser trocadas por outras. Por comidas que não são ingeridas, mas por outras que os alimentam sendo inaladas.

Os olhos sem brilhos dos zumbis da claridade não enxergam as estátuas da cidade maravilhosa. Os zumbis da claridade não vêem nada além da gente que tem alguma coisa para apressar seus trabalhos. Os zumbis do Rio de Janeiro se espalham pelas ruas movimentadas e pelas pessoas apressadas. Os zumbis da claridade somem em meio às pessoas, vítimas de um andar apressado e assustado.

Bianca Garcia